terça-feira, 25 de maio de 2010

Lula subverte a história das relações internacionais

O que realmente significa a negociação do governo brasileiro com o Irã - o que diz a chamada grande mídia nativa e a imprensa estrangeira.



A grande mídia no Brasil se refere à iniciativa de Lula, de negociar com o Irã a questão do enriquericmento de urânio, se utilizando de termos como: fiasco, megalomania e vergonha. Será que desta vez os grandes veículos de comunicação estão certos?

A opinião da midia é unânime? O que dizem a imprensa e os especialistas lá fora sobre o episódio? Vamos ver dois exemplos (com grifos meus).


Jornal Le Monde, Paris, 19 de maio de 2010

"Opinion"

Irã nuclear: o Sul emergente abre alas e pede passagem, na negociação
Tradução Caia Fittipaldi

O Sul emergente já aparecera antes, em cena que provocou frisson e alarido no palco internacional, em domínios do meio ambiente e do comércio. Essa semana, inaugura nova etapa, importante sinal de o quanto aumenta o poder desses países.
Ei-los ativos em terreno que, até agora, permanecia como quase-monopólio das tradicionais “grandes potências”: a proliferação nuclear no Oriente Médio – ou, em resumo, a relação de forças numa região-chave para Europa e Estados Unidos.

Os livros de História guardarão a data – 2ª-feira, 17 de maio –, em que Brasil e Turquia apresentaram à ONU acordo negociado com Teerã, sobre uma das facetas da questão nuclear iraniana.

Pense-se o que se pensar sobre o texto que resultou dessa mediação turco-brasileira, a própria mediação, em estratégia de mostrar fato consumado – não foi mediação solicitada –, muda consideravelmente o quadro mundial. Ela quebra de facto o domínio até agora reservado aos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU: China, EUA, França, Grã-Bretanha e Rússia.
Endereçada exatamente a esses, a mensagem do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e do primeiro-ministro Recep Tayyip Erdogan é clara: nem pensem, em 2010, em porem-se a reinar só vocês, sobre uma ordem internacional na qual o peso das nações evolui a favor de países como os nossos (o Sul emergente estende-se do Egito à África do Sul, da Nigéria à Indonésia).


25/05/2010-02h30
Opinião: Uma nova ordem mundial é possível (e necessária)

MARK WEISBROT
co-diretor do Centro de Pesquisas Econômicas e Políticas, em Washington, D.C.
Para o Jornal Folha de São Paulo

Tradução de Clara Allain

Os esforços do Brasil e da Turquia para encontrarem uma solução negociada do impasse em torno do programa nuclear do Irã, esforços esses que na semana passada renderam um acordo negociado com o Irã, precisam ser vistos dentro do contexto de um desafio crescente à ordem política internacional.
(...)
Após um breve período de diálogo, a administração Obama reverteu à política externa da administração Bush com relação ao Irã -e já o fez com relação à América Latina. Trata-se de uma política de ameaças e sanções aumentadas contra o Irã, algo que intensifica em muito o risco de um confronto militar. (...)

Contrastando com isso, Brasil e Turquia continuaram pelo caminho anterior e breve de diplomacia propugnado por Washington e fecharam um acordo que é semelhante ao que foi defendido/proposto pelos Estados Unidos em outubro do ano passado. Por esse acordo, o Irã enviaria 1.200 kg de urânio pouco enriquecido à Turquia. Após um ano, o Irã receberia 120 kg de urânio para seu reator de pesquisas médicas.
De acordo com a Federação de Cientistas Americanos, sediada nos EUA, as diferenças entre o acordo mediado por Brasil e Turquia e o acordo proposto em outubro são pequenas. Apesar disso, a administração Obama vem tratando o acordo com pouco caso e está seguindo adiante com seu plano de aumentar as sanções contra o Irã. Contrastando com isso, na sexta-feira o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, disse esperar que o acordo "possa abrir a porta para uma solução negociada".

Brasil e Turquia já conquistaram uma vitória importante pelo fato de terem assumido a liderança nesta questão. Mostraram ao mundo que é possível obter avanços nesta questão por meio do diálogo e da negociação. Portanto, desaceleraram a marcha em direção ao confronto militar.

É claro que, como dizemos em Washington, nenhuma boa ação passa impune. A mídia ocidental, incluindo a maioria dos grandes veículos de mídia da América Latina, tende a fazer a cobertura das relações internacionais desde a perspectiva dos Estados Unidos. (...)

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